O
livro de Leonardo Boff ESPIRITUALIDADE –
Um caminho de transformação (Ed. Sextante) aborda o tema da espiritualidade
e a busca dela nos dias de hoje. Ele faz reflexões sobre como a humanidade tem
procurado a espiritualidade como salvação para pensamentos aflitos e
dramáticos, provocados por mitos como exterminação da espécie humana, ameaça do
futuro e da extinção da Terra. Na verdade, a espiritualidade é algo intrínseco
e que se manifesta nas pessoas que têm o sentido da solidariedade e cultivam o
sagrado. Quantas vezes já ouvimos falar em pessoas “espirituosas’? Estas
pessoas sempre estão ajudando outras e possuem uma benevolência que contagia.
Isto é a espiritualidade, longe de ser algo restrito ao mundo religioso.
No
capítulo 2, Boff cita Dalai-Lama que responde de forma categórica que
“espiritualidade é aquilo que produz no ser humano uma mudança interior”. Boff
complementa dizendo que “o ser humano é um ser de mudanças, pois nunca está
pronto, está sempre se fazendo, física, psíquica, social e culturalmente”.
Estou sempre em mutação e o mundo à minha volta também. Por isso devo estar
espiritualmente preparado para estas mudanças. Ser espiritual é ser ético, ser
desapegado dos valores materiais e mundanos que interferem em nossa consciência
e nossa visão de mundo. O autor faz a relação da prática espiritual com a
prática ética. Ambas transformam e aperfeiçoam o estado geral do coração e da
mente. Desta forma nos tornamos pessoas melhores.
Ele
também faz a distinção e a relação entre espiritualidade e religião, usando uma
citação de Dalai-Lama:
Julgo que religião esteja relacionada com a crença no direito à
salvação pregada por qualquer tradição de fé, crença esta que tem como um de
seus principais aspectos a aceitação de alguma forma de realidade metafísica ou
sobrenatural, incluindo possivelmente uma idéia de paraíso ou nirvana.
Associados a isso estão ensinamentos ou dogmas religiosos, rituais, orações e
assim por diante. Considero que a espiritualidade esteja relacionada com
aquelas qualidades do espírito humano – tais como amor e compaixão, paciência e
tolerância, capacidade de perdoar, contentamento, noção de responsabilidade,
noção de harmonia – que trazem felicidade tanto para a própria pessoa quanto
para os outros. Ritual e oração, com as questões de nirvana e salvação, estão
diretamente ligados à fé religiosa, mas essas qualidades interiores não
precisam ter a mesma ligação. Não existe portanto nenhuma razão pela qual um
indivíduo não possa desenvolvê-las, até mesmo em alto grau, sem recorrer a
qualquer sistema religioso ou metafísico.
Com
esta exposição de Dalai-Lama a distinção entre espiritualidade e religião fica
de fácil entendimento. Boff complementa que as religiões fornecem uma visão
sobre Deus e são fontes de ética, de práticas comportamentais que visam o amor
uns aos outros, porém não são essencialmente a espiritualidade.
Em
contrapartida o autor descreve as religiões como “uma das construções de maior
excelência do ser humano”. Elas trabalham com o divino, com o espiritual, mas
não são o espiritual.
Grandes
nomes que representam a espiritualidade como Buda, Jesus Cristo, Isaías, Luther
King e Ghandi são citados na obra sendo pessoas carismáticas e que foram em
busca dos mistérios do Ser e que manifestaram uma mudança interior. Estas sim
são pessoas “espirituosas” e que conseguiram compreender o sentido da
espiritualidade.
O
espírito da Ética é a espiritualidade, é ser solidário, buscar o correto num
mundo de tantas injustiças. O espírito deve manifestar-se em cada um de nós,
provocando a mudança interior que vai nos levar a um sentido espiritual das
coisas, a um sentido Ético de tudo o que nos permeia. Os ensinamentos de
Leonardo Boff são como luzes que iluminam um caminho que nós não trilhamos
ainda por não termos dado conta de que este caminho está dentro de nós, um
caminho de transformação. O caminho da ESPIRITUALIDADE.
Boff
traz a espiritualidade para o mundo contemporâneo, para este mundo cheio de
superinformação, que esquece de olhar para dentro de si e entender o quão ético
seria se cada um vivesse intensamente a espiritualidade.
O
último parágrafo da obra resume tudo o que falei até aqui sobre a
espiritualidade de Boff:
Se reservarmos em nossa vida um pouco de espaço para essa
espiritualidade, ela vai nos transformando, pois este é o condão da
espiritualidade: produzir uma transformação interior. Essa transformação
acenderá nossa chama interior que produz luz e calor e nos dá mil razões para
vivermos como humanos. Assim, caminharemos serenos neste mundo, com outros e na
mesma direção que aponta para a Fonte de abundância permanente de vida e de
eternidade. E mergulharemos nessa Fonte de espiritualidade, que é Fonte de
espírito, de vida, de amorosidade, de realização e de paz.
Esta é a espiritualidade que precisamos
manifestar, este é o espírito da Ética que precisamos praticar. Com a leitura
desta obra do pensador Leonardo Boff o sentimento profundo da espiritualidade
fica mais acessível e iluminado aos olhos daqueles que buscam a plenitude longe
de suas consciências.
Espiritual
é ético, é divino, é a obediência ao não-obrigatório.
“Seja a
mudança que você quer ver no mundo”
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