segunda-feira, 27 de maio de 2013

DISCOTECA BÁSICA - Literatura Musical

Desabafos em Alta Fidelidade
(Considerações sobre Abbey Road)
Por: Hermes Gregório.
No mesmo ano do milésimo gol do Pelé e do homem pisando na lua, tivemos um evento histórico para o rock’n’roll: o lançamento de Abbey Road, um dos álbuns mais impressionantes dos Beatles. Em setembro de 1969, a Inglaterra e o resto do mundo viriam a conhecer o álbum que expressa as frustrações dos garotos de Liverpool, ocasionadas pelo poder e pelo dinheiro.  Eis que destas frustrações nasceria, na minha opinião, a obra mais ousada e intensa já feita pelos Fab Four. A faixa “Come Together” e seu refrão bem ao estilo “campanha eleitoral” (a música veio à luz como uma música de campanha para o guru do LSD Timothy Leary) dá início aos 47 minutos do épico e melódico Abbey Road. Logo depois “Something” vem como uma balada repleta de momentos explosivos de dúvida. Declarações de amor aos prantos estão em “Oh! Darling”, assim como “I Want You (She’s So Heavy)”, com seu peso e imponência, faz Paul cantar 24 vezes a frase “I Want You” enquanto riffs de guitarra conduzem sua crise de possessão. É nesse álbum que está “Here Comes The Sun” com certa dose de otimismo e “Because” com sua psicodelia e a harmonia vocal da banda cantando frases como “porque o mundo está girando / fico animado”.
Sem desmerecer nada criado até então pelos Beatles neste álbum, o medley de 8 canções que surge sorrateiramente com “You Never Give Me Your Money” é o que faz de Abbey Road diferente e, digamos, surreal e empolgante até o último minuto. Sem conexão narrativa entre as músicas, mas interligado pela sonoridade, este medley aborda questões pessoais dos quatro integrantes da banda. O teor das letras é sobre exaustão, dificuldades financeiras e conflitos internos. Em 16 minutos eles conseguem desabafar tudo que estão sentindo a respeito da vida e da carreira de sucesso até chegarem à faixa “The End”, um encontro de guitarras sincronizadas com a bateria que proclamam o fim de tudo, terminando com os versos “E no final / O amor que você recebe/ É igual ao amor que você doa”. O último álbum gravado pelos Beatles é o primeiro a ser gravado em oito canais nos estúdios Abbey Road. Com faixas produzidas em alta fidelidade esta obra-prima é essencial para entender a história da maior banda de todos os tempos, além de ter uma inegável relevância para a escala evolutiva do rock’n’roll, servindo de influência para as futuras bandas. Para uma experiência sonora mais emocionante, sugiro a versão remasterizada que foi lançada com os outros 13 álbuns da banda em 09/09/2009.
John, Paul, Ringo e John fizeram de 1969 um ano histórico para o rock’n’roll e nós, historiadores e roqueiros, agradecemos.
O clássico Abbey Road, de 1969, com sua capa educativa

segunda-feira, 6 de maio de 2013

DISCOTECA BÁSICA - Palavras sobre música

O CAMALEÃO ENIGMÁTICO RESSURGE
Depois de quase uma década de silêncio, o camaleão do rock está de volta. David Bowie está lançando o enigmático álbum “The Next Day”, contrariando todos os rumores sobre sua aposentadoria. Durante os últimos dois anos ele ficou em segredo gravando em Nova York até lançar o primeiro single “Where Are We Now?” no dia do seu aniversário (8 de janeiro).
Para celebrar o retorno de um ícone da música, vale a pena fazer uma viagem de volta a 1972 e ouvir o álbum “The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars”. O épico álbum que conta a história do alienígena Ziggy Stardust (um alterego do próprio David Bowie) que vem para salvar a Terra, mas acaba cedendo às extravagâncias do rock’n’roll.  São 11 faixas do que há de melhor em David Bowie (ou seria Ziggy Stardust?). A primeira faixa “Five Years” anuncia o fim do mundo em cinco anos, enquanto um piano conduz a melodia cósmica com a melhor voz de Bowie. Uma composição que expressa o desespero do fim de forma poética.
Bowie, na época do lançamento de Ziggy Stardust, incorporou o personagem durante sua turnê enquanto a sanidade se perdia em meio ao brilho e exuberância da fama.  “Starman” é a mensagem que Ziggy envia à juventude do planeta Terra, fazendo uma relação com os fãs que o seguiam na turnê. A canção soa como uma sinfonia interestalar que nos leva à catarse. A história de Ziggy Stardust passa por vários momentos representados pelas faixas do álbum. Bowie expressa uma personalidade confusa nas letras, buscando uma resposta para suas dúvidas como pessoa. Quando chegamos na faixa-título “Ziggy Stardust” podemos ouvir o riff que convida a uma viagem estelar enquanto o alienígena relata suas aventuras musicais entre os humanos. Como se não bastasse o álbum termina com o suicídio de Ziggy em “Rock & Roll Suicide”, que poderia muito bem nao ser o suícidio, mas uma viagem a outra dimensão até chegar o próximo dia. Sendo Bowie ou Ziggy Stardust, ele consegue deixar um legado musical admirável com composições perfeitas para um viagem entre os universos paralelos.