terça-feira, 25 de setembro de 2012

A TENTATIVA DE UM CRONISTA

A primavera começou, o vento sul chegou e o horário eleitoral ainda não terminou...são nesses momentos que penso em crônicas. Mas como devo escrevê-las?
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Crônica Sem Impacto (metalinguagem)

Hermes Gregório*
Num dia qualquer do meu cotidiano resolvi parar e escrever um texto. Tentei pensar em algo que pudesse render frases e mais frases de impacto, mas entrei em conflito com minha criatividade.  Fiquei a pensar durante alguns minutos sobre o que poderia escrever e, quem sabe, gerar alguma polêmica entre os leitores que chegassem a este texto. Então lá fui eu. Sentei de forma confortável no sofá com o laptop no colo (os especialistas recomendam não fazer isso), abri o Word e selecionei algumas músicas clássicas para me acompanhar na produção literária. A escolha por música clássica foi proposital e eu explico o porquê. Por se tratar de um tipo de música instrumental eu não teria que prestar atenção aos vocais cantando frases que eu chamaria de “salvação poética” e, consequentemente, não teria que escrever sobre elas. Isso já foi feito de forma superficial, mas quem sabe um dia eu mergulhe nos recônditos mistérios da inspiração musical dos grandes mestres da arte sonora.
Enquanto Vivaldi, Bach, Beethoven e outros nobres da música erudita invadiam minha sala com suas preciosas composições, eu invadia meus arquivos mentais para trazer ao papel (metaforicamente falando) devaneios ou reflexões de impressões da vivência. Tentei enumerar o que poderia considerar como um grande tema, mas percebi que nem sempre os grandes temas são tão fáceis de explicar. Se a vida deve ser simples, por que devemos nos preocupar com grandes temas? Então logo descartei a hipótese de escrever sobre grandes chuvas, grandes heróis, grandes símbolos ou grandes possibilidades de algo se tornar grande.
Após pensar por alguns minutos lembrei-me de grandes pensadores, mas depois me dei conta de que já havia descartada a hipótese de escrever sobre grandes temas. E não teria a menor graça escrever sobre pequenos pensadores, mas seria interessante escrever sobre pensadores, nem grandes e nem pequenos. Aquelas pessoas anônimas que encontramos por aí e que se destacam por sua serenidade sem grandes motivos, pois estar vivo já é o motivo. Qualquer um que senta por alguns minutos e interage com seu cotidiano em busca de respostas, mas sabe que só as perguntas interessam. Qualquer um que assimila o seu dia cantando uma melodia qualquer, sabendo que nada é por acaso e que no fim tudo dá certo, mesmo que tenha que encarar uma fila de trânsito no final do dia. Qualquer um que toma seu café numa tarde de terça-feira despreocupado, como se não houvesse amanhã. Qualquer um que olha pro lado e entende que aquele é seu irmão e que não pode julgá-lo, pois não sabe como foi o dia dele. Qualquer um que cumprimenta o estranho e lhe deseja um grande dia.  Qualquer um que nem sempre sabe tudo, mas o que ele sabe pode transformar a vida de quem o ouve sem compromisso. Qualquer um que não estudou filosofia, mas acaba com ideologias pós-modernas e capitalistas proferindo algumas palavras. Qualquer um que nem sempre encontramos, mas estão em algum lugar por aí.
A música clássica proposital continua fazendo a trilha sonora e me permitindo formar algumas frases em meio a uma tempestade de reflexões. Sei que estou há exatos 55 minutos escrevendo (digitando) o que proponho a ser um texto de impacto. Mas voltei a pensar e repensar e percebi que não há motivos para causar impacto. Talvez o impacto sejam os 118 verbos que escrevi até aqui. Ou, quem sabe, o impacto não seja uma boa ideia (detesto “ideia” sem acento, mas é a nova regra), pois já temos tanto impacto em nossas vidas com o noticiário e com a pós-modernidade que o melhor agora é a busca pela plenitude.  Nada de surpresas ou sustos com algo chocante, mas sim a emoção despertada por um gesto de bondade sem ficar se achando piegas, por um gesto de solidariedade sem querer algo em troca. Isso tudo parece “mais do mesmo”, como se alguém já falou, profetizou e de nada adiantou. Mas isso agora não vem ao caso, pois a tentativa aqui é de buscar reflexões para a produção de um texto. Discorrer sobre esta busca incessante de conteúdo já é o próprio conteúdo, só agora é que me dei conta. O mais engraçado disso tudo é que o fluxo da consciência não cessa, não pede intervalo e não dorme. Se me deixarem fico aqui, divagando devagar até o teclado do computador pedir uma trégua. Então é melhor parar de pensar agora e ouvir o silêncio que invade o espaço visto por olhos cerrados (sinais do sono).
PALAVRAS sem pretensões / pressupostas por ideias / idealizadas pela livre arte de pensar / Pensamentos tornando-se PALAVRAS
Abraço do 3MEGISTO

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